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Queijo Canastra: o que torna esse queijo tão especial?

27 de outubro de 2026 · por Alisson Gustavo Kalil

Descubra o que torna o queijo Canastra especial: o pingo, os sabores da maturação e o saber artesanal mineiro reconhecido pela UNESCO.

Nem todo queijo Canastra tem o mesmo sabor

Imagine comprar dois queijos Canastra de produtores diferentes. Ambos foram feitos na mesma região, seguindo uma tradição semelhante. Ainda assim, um pode apresentar sabor mais suave e textura macia, enquanto o outro tem aromas mais intensos e uma massa firme, que se desfaz com facilidade.

Isso não acontece apenas por causa do tempo de maturação. As características do leite, os microrganismos presentes na produção e as escolhas de cada queijeiro também influenciam o resultado.

É uma das coisas mais interessantes do queijo Canastra: por trás de um nome conhecido, existe uma diversidade enorme de sabores.

E boa parte dessa história começa com algo que talvez você nunca tenha ouvido falar: o pingo.

Da Serra da Canastra para a mesa

O queijo Canastra é produzido na região da Serra da Canastra, no sudoeste de Minas Gerais.

Sua fabricação tradicional utiliza leite cru de vaca, coalho, sal e um fermento natural. A massa é trabalhada, enformada, prensada e salgada antes de passar pela maturação.

Parece uma receita simples. Mas o resultado depende de uma combinação de fatores: o leite produzido na propriedade, as condições do ambiente, a fermentação e a experiência de quem faz o queijo.

O Canastra possui uma Indicação de Procedência reconhecida pelo INPI, que identifica sua ligação com uma área geográfica delimitada e estabelece regras para o uso da indicação.

Mas a identidade desse queijo não se resume ao lugar onde ele é produzido. Para entender o que acontece dentro dele, precisamos conhecer um ingrediente pouco óbvio.

O segredo está no pingo: o queijo de hoje começa ontem

Durante a fabricação artesanal, parte do soro que escorre dos queijos depois da salga é recolhida. Esse líquido recebe um nome curioso: pingo.

Em vez de ser descartado, ele pode ser utilizado na produção do dia seguinte, quando é adicionado ao leite fresco.

E por que isso importa?

Porque o pingo contém bactérias lácticas que participam da fermentação e contribuem para o desenvolvimento do sabor, do aroma e da textura do queijo. A EPAMIG descreve o papel desse fermento e as variações de sua microbiota.

É como se a produção de um dia ajudasse a dar continuidade à do próximo.

O mais interessante é que esse fermento não tem necessariamente a mesma composição em todas as fazendas. Os microrganismos podem variar conforme a propriedade, o ambiente e as condições de produção.

Estudos realizados na região da Canastra registraram diferenças físico-químicas em queijos elaborados sob distintas condições de fabricação e uso do pingo. Uma pesquisa publicada pela EPAMIG ajuda a compreender essa diversidade.

Isso ajuda a explicar por que o Canastra não precisa ter sempre o mesmo sabor.

Mas não é só o pingo que determina o resultado. A qualidade do leite, a higiene, o manejo, a fabricação e a maturação também fazem diferença.

O que parece apenas uma receita tradicional envolve, na verdade, uma combinação de conhecimento prático e microbiologia.

E esse conhecimento não começou num laboratório. Foi desenvolvido e transmitido por gerações de produtores, muito antes de termos instrumentos capazes de estudar o que acontece dentro do queijo.

O tempo também transforma o queijo

Depois de produzido, o Canastra continua mudando.

Durante a maturação, microrganismos e enzimas participam de transformações que afetam sua textura, seus aromas e seu sabor.

Um queijo mais jovem costuma preservar mais umidade e pode apresentar textura macia e sabor lácteo mais delicado.

Com o avanço da maturação, ele pode ficar mais firme, perder umidade e desenvolver sabores mais concentrados. Mas essa evolução não é idêntica para todos os produtores.

Alguns queijos também apresentam uma característica particularmente interessante: a casca florida.

Nesse caso, fungos que se desenvolvem na superfície participam da maturação, podendo modificar a aparência, a textura e os aromas da peça. Pesquisadores da EPAMIG explicam esse processo.

São experiências gastronômicas diferentes, mesmo quando o ingrediente tem o mesmo nome.

Por isso, ao escolher um Canastra, vale perguntar não apenas de onde ele veio, mas também quem o produziu e quanto tempo passou maturando.

Um patrimônio que vai além do queijo

Em dezembro de 2024, a UNESCO reconheceu os Modos de Fazer o Queijo Minas Artesanal como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

Existe uma diferença importante nessa notícia: o reconhecimento não foi concedido exclusivamente ao queijo Canastra, nem representa um prêmio para determinado produto.

O que recebeu reconhecimento internacional foi o saber fazer tradicional compartilhado por comunidades produtoras de diferentes regiões de Minas Gerais.

Esse patrimônio inclui as técnicas de fabricação, os conhecimentos sobre o leite, a utilização do pingo, os cuidados com a maturação e as formas de transmitir tudo isso entre gerações.

O IPHAN já havia reconhecido a importância cultural desses modos de fazer em 2008.

É uma maneira de lembrar que a tradição não está apenas no queijo pronto. Está também nas pessoas que sabem produzi-lo e que continuam ensinando esse ofício.

E o que acontece quando o Canastra encontra uma massa?

Conhecer melhor o Canastra também abre possibilidades na cozinha.

Um queijo mais jovem, dependendo de sua umidade e textura, pode funcionar muito bem em recheios de massas. Já um Canastra mais maturado pode ser ralado sobre um nhoque, incorporado a uma finalização com manteiga ou utilizado para acrescentar intensidade a um molho.

Não existe uma regra única. A maneira como cada queijo reage ao calor varia com sua composição e maturação, então vale experimentar antes de escolher a melhor aplicação.

E essa é uma parte especialmente interessante de cozinhar: o mesmo prato pode ganhar características completamente diferentes com a troca de um ingrediente.

Na Pastaz, gostamos de explorar essas possibilidades. Uma massa pode ser o ponto de partida para descobrir um queijo, experimentar uma combinação ou perceber um sabor que antes passava despercebido.

Da próxima vez que encontrar um Canastra, experimente prestar atenção à textura, ao aroma e à intensidade do sabor.

Talvez você não descubra apenas um queijo de que gosta.

Talvez descubra que existe muito mais de um jeito de gostar dele.

Fontes e leituras

INPI — Indicações Geográficas reconhecidas (Canastra, queijo)

EPAMIG / MilkPoint — Queijo Minas Artesanal de Casca Florida: aspectos tecnológicos

EPAMIG — Queijos artesanais mineiros: da matéria-prima ao produto final

UNESCO — Traditional ways of making Artisan Minas Cheese in Minas Gerais

IPHAN — Modos de fazer o queijo Minas artesanal

Foto da capa: Marcelo Costa / Wikimedia Commons — licença CC BY 2.0. Imagem original exibida com recorte para o formato do site.

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